quinta-feira, 15 de junho de 2006

Ôla, que tal...

BUENOS AIRES - Respiro civilizaçäo. Nem tanto hoje, já que a cidade foi ivadida por brasileiros (deve ser por causa do feriado). Mas com um pouco de vinho, boa vontade e abstraçäo (náo tem til nesse teclado, porra!), dá pra ignorá-los e seguir feliz. No hay tiempo, ahora. Saio daqui pra me deliciar com um bife âncho e mergulhar num Albec qualquer. Aborrecimentos e outras histórias em breve, em outro post. Gracias.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Depressão da Luzia

O cheiro de sopa na escadaria do prédio do amiguinho pobre; um hotel em Miracatu e um irmão de pé quebrado. As marcas de surra da mãe travesti do vizinho de 13 anos; complexo de édipo; apartamento na Alexandre Herculano; Zezé passando roupa, Jen na TV e bolachas de chocolate da Dilly; uma caixa inteira de Toddynho!!! Ah não, é "Pelezinho"; a supermassa secou; o video-game quebrou; colégio Stella Maris; 13 anos e 70 quilos; 15 anos, 120 quilos; silêncio na casa da Tia Tetê; velório da Dona Lourdes; orquestra sinfônica desabando durante o hino nacional na véspera do ano novo; choro compulsivo sem explicação; aula de educação física; aula de religião; aula de português; aula de música; aula de inglês; parabéns pra você em surto psicótico e vela acesa na lasanha; CD arranhado; músicas da Yoko; férias de julho internado sem saber porque; não ir na excursão; ver o sol nascer; ver o sol se pôr; dormir à tarde e não ver o sol se pôr; bater no irmão mais novo; bater no irmão mais velho; primo atropelado; amor não correspondido; namorar menina louca; presunto fresco estendido no asfalto durante a festa de Natal.

Campo da Luzia


Já que estamos em estado de Copa, eu que entendo tanto de futebol quanto tu manjas de cricket, vou de Horta da Luzia nas peladas.

O esférico rolando sobre o tapete verde do nobre esporte bretão; selecionado canarinho; CBD; Centeralf; scretch; stoper; Geraldo Bertas; Ely Coimbra; por pouco, pouco, pouco, muito pouco, pouco mesmo; e segue a contenda sob os olhares atentos do homem de preto; invadiu o quadrilátero para alojar a bola na moldura, entre as balizas do arco; guarda metas; meu pai socando o televisor na tentativa de assistir a um Santos e Vasco em meio a fantasmas e chuviscos nas imagens em preto e branco. Em seguida, pra minha felicidade, Manda Chuva, o gato, dublado por Lima Duarte, com imagem perfeita, “um cinema”; anular jogada por ofside; simca tufão; álbum de figurinhas da seleção de 70 (obs.: nunca completei um álbum de figurinhas em toda minha vida. Pairava a desconfiança de que quem os completava, liberava o toba);

Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe; morar na mesma rua do Pelé, do Mengalvio, do Ramos Delgado e do Carlos Alberto de 1967 a 1971; a pilha do gato; Náutico Praia Clube; Vasco e Flamengo no Maracanã aos 8 anos de idade; a depressão ao ouvir os radinhos transmitindo os jogos no final da tarde de domingo (só perdia pra musica de abertura do Fantástico); um jogo de botão que nunca tirei da caixa (meu irmão dominou); Vila Belmiro; Quitandinha – boteco/mercearia nas cercanias do campo do Santos; E segue a pelota...

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Horta de Luzia Revisited

Pois, eis que abro o livro com a antologia d'O Pasquim e me deparo com um meio-jogo-meio-memorias escrito por Ivan Lessa (e respondido por Ziraldo) cujo objetivo é jogar lembranças no papel. Uma microbiografia focada não no biografado, mas nos fatos comuns aos seus conterratemporâneos.
Vou começar o jogo e convido vocês (colaboradores ou comentaristas) a me seguirem:

Lembro das revistas "Careta" que meu pai colecionava, o panelaço pelas diretas e a morte do Tancredo "narrada" por aquele porta-voz barbudo. Drops Chu-cola no cine Indaiá ou no Alhambra. Cheiro de chá na casa da vó com as tias conversando e apertando a bocheca. Também na casa da vó, inverno com sol, formula-1 e amendoim. Pantera cor-de-rosa nofim da tarde e na sequência a versão em desenho de "A volta ao mundo em 80 dias". O Sr. Phileas Fogg era um leão. O cheiro de "média" quentinha ao voltar da padaria (média santista = pãozinho). Pular o muro da casa pra pegar carambola, acordar mais cedo pra ver o primeiro Show da Xuxa. Voltar da escola a pé pela praia em dias cinzas conversando com o melhor amigo. Ter vergonha do uniforme da escola. Tomar lanche na parte de cima do Eldorado e na saida enfiar a mão no saco de feijão a granel que ficava bem embaixo daqueles lustres-bola dourados. Mascar muitos ping-pongs para colecionar as figurinhas com tranfix da copa de 86. Ficar ansioso para encontrar aquela menina da escola no bailinho e dançar meia música com ela. Ficar feliz a noite inteira por isso. Comer o sorvete de maçã verde do tubarão no Manolo depois da praia.


Depois eu continuo. Agora são vocês.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

O empirismo de Didi Mocó


Tenho discutido com minha namorada as desvantagens do conhecimento empírico sobre o científico. Fui criado para pensar cientificamente e sei que os fundamentos empíricos têm grande importância para a construção de grandes teorias científicas. O problema é que a preguiça do intelecto dos ignorantes prefere se manter nessa cadeia de pensamento em detrimento do estudo sério e aprofundado das coisas, o que leva, na maioria das vezes, ao equívoco.
Lula é um dos reis do empirismo. O seu cérebro, além de muita merda, é recheado de experiências pessoais "que ninguém nesse país já teve". Lula disse que "Esses bandidos que vocês viram na TV outro dia, assustando São Paulo, matando policiais, na década de 80 deviam ser meninos de 4 ou 5 anos de idade... só que esta criança não teve no tempo certo a sua esperança atendida, a sua escolaridade atendida, quem sabe por outros problemas que envolveram sua família."
A equivocada fala do chefe-maior é uma bela cuspida pra cima. Ou a explicação que faltava para justificar a bandidagem insitucionalizada no planalto. Temos um presidente semi-analfabeto. Logo... bandido.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

O Fabuloso Instrumento de Sopro de Monsieur Pujol

Falemos de tempos menos aborrecidos.

Você sempre ouviu falar na grande atriz Sarah Bernardt. Mas aposto a minha coleção do Zéfiro que pouco (ou nunca) ouviu falar em Joseph Pujol, certo? Por que será, já que ambos dividiram o sucesso e os palcos parisienses na mesma época? Mais intrigante ainda é saber que no auge de suas carreiras, lá pelo final do século XIX e começo do XX, enquanto Sarah faturava 8 mil francos por apresentação, Pujol embolsava 20 mil e lotava as melhores e maiores casas de espetáculos de Paris.

E olhe que, numa atuação, o esforço físico e intelectual da grande dama do teatro era infinitamente maior que o de Le Pétomane – o apodo artístico de Joseph Pujol ( e você já vai entender porquê). Enquanto Sarah se esfalfava decorando, encenando e contracenando com grande elenco um texto como A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, Pujol, com sua indefectível gravata vermelha e culote preto de cetim, entrava em cena sozinho, curvava-se levemente (como na foto acima) diante da platéia atenta e, minimalista, executava La Marseillaise, o hino que convoca os cidadãos franceses à luta.

Injusto, não? Nem tanto, se considerarmos que o “instrumento” que Monsieur Pujol usava para as performances era o seu próprio orifício sedal.

Sim, você entendeu bem. Com seu exclusivo “instrumento de sopro”, o sujeito não só interpretava solos e escalas musicais pelo traseiro, como realizava uma série de imitações sonoras que ia de pássaros e outros animais, até o choro de um bebê ou o estrondoso tiro de um canhão (uma de suas obras máximas). Mas tudo com muito glamour e, é importante que se diga, nenhum odor – Pujol não expelia gases, mas o próprio ar que aspirava.

Nascido em Marselha em 1857, Joseph ainda era um menino quando manifestou seu extraordinário dom. Em uma excursão pela costa francesa, ao mergulhar no mar, descobriu que abrindo seus esfíncteres, era capaz de absorver grande quantidade de água. Assustado, correu para praia e, voilà! – diante de banhistas atônitos, expeliu o líquido a uma distância de vários metros. Aplausos.

Joseph gostou daquela aprovação pública e, já prestando o serviço militar, divertia a soldadesca com o número do “chafariz”. Até que sua popularidade chegou aos ouvidos do oficialato. Pois acredite, seus superiores, depois de esfregarem os olhos para poderem acreditar no que viam, foram os primeiros a valorizar suas habilidades artísticas (lembre-se de que estamos na maluca França fin-de-sècle). O jovem Pujol começou então a treinar seus intestinos de maneira contínua, passando boa parte do dia absorvendo e expelindo água, para deleite da tropa. Esta ginástica intestinal e a troca da água pelo ar seriam os segredos do êxito que o acompanharia por toda sua vida artística.

Ao sair do exército, Pujol foi trabalhar como padeiro durante o dia e, de noite, freqüentava os music halls de Marsselha, realizando aqui e ali pequenas exibições de comédia musical. Porém, seu exclusivo “espetáculo de sons e ventos” ficava restrito aos amigos de boemia. Foi a insistência desses amigos que o levou a aperfeiçoar o número e, finalmente, apresentá-lo ao público. Seus originalíssimos shows logo começaram a lotar os pequenos teatros de Marselha, levaram-no a Paris e, em pouco tempo, só um palco estaria a altura daquele estrondoso sucesso: o Mulin Rouge, a casa de espetáculos mais importante da Cidade Luz.

Com o teatro lotado, Pujol começava a apresentação explicando cada som: “Isto é o choro de uma criança” (ruído suave). Em seguida vinha o traque da noiva antes e depois da noite de núpcias (a diferença era notável), o pum de um monge, o de uma freira, o de um general e por aí afora. Quando o público já estava com o diafragma em frangalhos de tanto rir, vinham os números musicais. De uma simples e impecável escala tonal (do, ré, mi, etc.) passava a entoar melodias completas de canções como Frou-Frou ou Facination, e a imitar diversos instrumentos musicais. A flauta, por exemplo, era executada com a instalação – você pode imaginar onde – de um tubo de um metro e meio de extensão. Entre uma atração e outra, fumava um charuto pelas duas extremidades do seu corpo...simultaneamente! Seu ato final consistia em colocar uma vela a quatro metros de distância e apagá-la com um único sopro de seu traseiro. Era, ou não era, um fenômeno?

A platéia ia a tamanho delírio que Monsieur Vidler, diretor do Mulin Rouge, passou a distribuir enfermeiras uniformizadas pelo auditório a fim de atender aos desmaios e convulsões do público. Há de se desconfiar que o termo nonsense tenha surgido em uma dessas apresentações. Pujol, no entanto, sempre impecavelmente vestido, jamais perdia a expressão austera. O que tornava o espetáculo muito mais hilariante, claro.

Na volta de uma temporada pela Europa e norte da África, Pujol rompeu contrato com o Rouge e montou sua própria companhia, no Teatro Ponpideau. Ali, no final de uma de suas apresentações, foi abordado por um distinto senhor que, discretamente, passou-lhe uma moeda de ouro de 20 francos, agradeceu comovido por tanta diversão e sumiu-se. Curioso, Joseph foi perguntar a sua amiga Liane de Pougy – a cortesã mais badalada de Paris, na época – quem era o nobre e apressado cavalheiro. Liane, com o nonchalance de quem tudo sabe, disse tratar-se de ninguém menos que Leopoldo II, o rei da Bélgica, que viera incógnito a Paris testemunhar o talento do Pétomane. Sentiu o prestigio do cara? Pujol talvez tenha sido o primeiro artista a realizar o prodígio de misturar a noblesse francesa (aquela, avessa à vulgaridade) com os pintas-bravas do bas- found parisiense no mesmo espaço, unindo ambas as classes pelo riso.

Por 20 anos (de 1894 a 1914), Le Pétomane fez fama e fortuna por toda a Europa. Até que a I Grande Guerra entrou em cena e deixou o mundo bem menos divertido. Depois de perder três de seus nove filhos nas trincheiras do front, recolheu-se ao silêncio e foi viver como próspero confeiteiro em Toulouse, onde morreu aos 88 anos, em 1945.

Quando soube de seu falecimento, a Universidade de Sorbone ofereceu 25 mil francos aos seus herdeiros para obter o cadáver do artista e estudar o fenômeno aéreo de suas entranhas. Seu filho mais velho, porém, sem esconder o orgulho pelos dons naturais do pai, recusou: “Meu pai, no curso de sua longa vida deu de si o melhor. Certas coisas têm que ser tratadas com as devidas reverências”.

Assim, Monsieur Pujol, Le Pétomane, teve um funeral digno de um chefe de estado. Onde não faltaram estrondosos tiros de canhão e a execução de La Marseillaise.

Trabaia, Trabaia, Nego...


Trabalho. Lá na origem etimológica, a palavra já levava consigo a carga do suplício. Provém do latim vulgar tripaliun, instrumento de tortura construído por três pedaços de madeira cruzados ao qual era amarrado um condenado (tri=três; palus=estaca). Pois, tripaliare, trabalhar, significa torturar, sim senhor.

Ah, e as inscrições colocadas na parte superior do portão de entrada do campo de concentração de Auschwitz diziam: "O Trabalho faz a Liberdade".

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